terça-feira, 26 de julho de 2022

Dica para quem tem Netflix: Rompan todo!!!!!

 Há uma coisa que, confesso, me incomoda : o quanto não nos sentimos latino-americanos e como nosso dia a dia, ao menos nos canais mais "mainstream" (detesto esse tema mas vai...) há pouca penetração de material vindo de outros países de língua espanhola.
O mais interessante de tudo isso é que há um crasso desconhecimento da colaboração de músicos sul-americanos em momentos chaves da música popular brasileira. Quantos desconhecem que a banda que acompanhava Caetano Veloso na emblemática música "Alegria, Alegria" era composta totalmente por músicos argentinos do calibre de Tony Osanah, um guitarrista brilhante que depois seria parte do legendário grupo "Raíces de América" e outro gênio chamado Willy Verdager, baixista que mais tarde, junto com o baterista platino Marcelo Frias, tocaria no formidável álbum do "Secos e Molhados" que, na minha opinião, é um dos melhores da música brasileira de todos os tempos? Além deles, a banda chamada Beat Boys era composta por Cacho Valdez na guitarra e Toyo no órgão. 
E aí vamos deixar vários argentinos de lado como Billy Bond, um músico de sólida carreira em seu país (na verdade ele era italiano mas viveu a vida toda na Argentina) e, refugiado da ditadura militar de 76, que produziu artistas com Ney Matogrosso e fez parte do legendário Joelho de Porco entre outros. 

Falado tudo isso, vamos à recomendação para você que ainda está assinando o Netflix, o documentário "Rompan todo" , ou como foi chamado na nossa língua, "Quebra tudo: a história do rock na América Latina."

Confesso que me sinto muito menos ignorante depois de ter assistido esse documentário que atravessa a história do rock ´n roll desde sua chegada ao continente até os tempos atuais em diversos países como México, Colômbia, Chile, Argentina e por aí vai. 


Levei  bastante tempo para assistir todos os episódios porque ao lado da janela do Netflix tinha papel, caneta e Spotify. Foi a revelação de outro mundo, à partir de um documentário muito bem construído, fornecendo informações do contexto social e político dos países fatores que ajudaram a compor um cenário muito particular, amplo e envolvente. 

Não vou dar spoilers aqui e espero que todos que tenham curiosidade se dediquem a ver os 6 episódios que vão mostrar que estamos imersos em um continente de riquíssima cultura, músicos excepcionais e quem não podemos fechar os olhos e os ouvidos. 

Deliciem-se!


segunda-feira, 25 de julho de 2022

Papo de segunda: A caminho com Maiakovski (Bertold Brecht)

Se você tem respirado nos últimos dias e, particularmente ontem, sabe porque isso está sendo publicado. 

(Foto: JB Liborio)
Para quem não pode ver: foto de uma rosa molhada de chuva contra fundo preto.




"Na primeira noite, eles se aproximam e roubam
  uma flor do nosso jardim: não dizemos nada.
  Na segunda, já não se escondem. Pisam nas flores, matam nosso cão e não dizemos nada.
  Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e,     
  conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
  Aí já não podemos dizer nada.

Bom dia e boa semana a todos e todas!

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Oriana Fallaci: a genial fúria incontida

 Talvez eu tenha feito um grande bem à minha vida em não ter cumprido um dos meus sonhos que era ser jornalista e, de forma alguma, isso é depreciativo à essa categoria que admiro tanto.

Penso se, de alguma forma, eu estaria transitando entre a vontade de ser direto, cortante, ser sem concessões na hora de entrevistar e algo em miim que tente à calar os extremos quando não devo e colocá-los à mostra em uma hora que talvez não fosse a apropriada.

Oriana Fallaci é (porque continua mesmo depois de morta) uma das entrevistadoras mais agudas e uma das escritoras mais intensas que eu tenha lido e isso lhe valeu uma condenação religiosa por conta do livro polêmico e sem concessões alertando sobre a islamização do ocidente chamado "A força da razão", um dos que tenho em minha biblioteca e são ainda encontrados em sites de livros usados (sebos). 

Essa fiorentina, nascida em 1929 em 29 de julho, viveu em sua juventude os tempos duros de fascismo e serviu, junto ao seu pai que foi preso e torturado, como correio da resistência, os "partisanos" e se atentarmos às datas, veremos que Oriana era uma adolescente que foi condecorada pelo exército italiano por suas ações na resistência.

Antes de chegar à universidade, Oriana conheceu pessoas cujos ecos da pasagem pela vida da italiana, ressoaram durante algumas entrevistas com pessoas em posição de comando como Henry Kissinger . A postura do então secretário norte-americano a remeteu à um professor de matemática de sobrenome Manchinelli, mestre com o qual Oriana teve uma conflituosa e insubordinada relação e, ao ver a forma de se sentar de Kissinger, pensou: "Meu Deus! Lá vamos nós com Manchinelli outra vez!". 

Não foi por outro motivo que, mais tarde, Kissinger arrependeu-se de dar aquela entrevista no qual foi massacrado pela pequena italiana. Essa entrevista pode ser lida, integralmente, no livro "Conversas com a história" .



Ao mesmo tempo que não tinha contemplação alguma ao entrevistar o secretário de estado, estabeleceu uma relação diversa com a primeira-ministra israelense Golda Meir e sua contraparte indiana, Indira Gandhi. Respaldada por, como  que diria em uma entrevista para a revista Rolling Stone, uma contínua referência à sua infância, reconheceu naquelas duas mulheres, uma solidão quase que própria de mulheres da idade de ambas.Em uma nota pessoal, essas entrevistas são as minhas favoritas, especialmente a de Golda Meir, uma das melhores que li com qualquer líder israelense. 

Oriana Fallaci (fonte: internet)
Para quem não pode ver: foto de uma mulher com cabelos longos abaixo dos ombros, rosto oval, olhando para o lado direito e as mãos com os dedos apertados.)

Dentro do contexto que mais gosto de ler Oriana, a de entrevistadora, recomendo um livro chamado "Entrevistas com a história". Em uma busca ligeira na internet na data de publicação desse artigo (jul/2022) apenas encontrei edições usadas em língua estrangeira, a minha , inclusive, sendo em língua inglesa. 

No entanto, o esforço em encontrá-la revelará uma jornalista que foi correspondente de guerra no Vietnã, que estava em seu auge quando se dedicava a entrevistar pessoas da mais variada gama de Yasser Arafat como o nosso Dom Helder Câmara, o chamado bispo vermelho.

Na pesquisa dos dados biográficos de Oriana, me deparei com um artigo de João Pereira Coutinho, publicado em 27 de junho de 2015, sobre a condenação que a autora italiana sofreu , por parte de um tribunal islâmico, por razão de seu livro "A força da razão" onde ela assinalava a crescente islamização do continente europeu, prevendo o declínio da civilização ocidental ante ao crescente domínio daquela religião. 

Em determinada altura do artigo, João Pereira Coutinho escreve: " Entendam: não sou fã de Fallaci e o tom é francamente desagradável. Fallaci escreve com raiva - e raiva ofusca o pensamento. Gente que grita não tem lugar na minha estante. " (grifo meu)

Certamente o articulista falava do livro em questão que era um libelo enfático escrito por alguém que soube o que é ter vivido sob um regime autoritário e opressivo. No entanto, se estendido à toda obra de Oriana, demonstra o quanto ser incisivo e ser raivoso transita em um território limitrofe e nem sempre bem entendido.

Para mim, na suspeita condição de admirador de Fallaci, lamento que na imprensa comercial atual, onde falta tanta contundência nas denúncias necessárias frente ao mundo e a o país que vivemos, falte alguém para emular a admirável entrevistadora.

Temo que, mesmo indicando isso, tivesse me faltado coragem ou uma vida diferente. 

terça-feira, 19 de julho de 2022

Podcasts que eu ouço: Vida de Jornalista

Podcasts tem se tornado uma paixão particular: o formato e a abrangência dos tópicos abordados, a própria "estética" de muitos deles, a facilidade em ouví-los à qualquer hora que seja possível, fazem-me retomar uma relação que confesso ter estabelecido com o rádio e que, de alguma forma, se quebrou com aquele meio por razões que não cabem explicar aqui.

De todos os podcasts que ouço , alguns  sobre os quais comentarei aqui,  um tem uma atração particular, principalmente por tocar um tema que eu amo que é o jornalismo: o Vida de Jornalista. 

Eu sou um daqueles que tem bem claro que nenhum setor da atividade cultural/econômica seja tão criticado e , ao mesmo tempo, tão pouco compreendido, do que o jornalismo e com a internet, esse desconhecimento tornou-se ainda mais acentuado. 

Os veículos tradicionais, já à anos, vem cedendo passo ao chamado "jornalismo digital" e o que mais considero interessante, já entrando no tema "Vida..." é que o podcast dedica-se tanto às novas plataformas e meios "emergentes" como dedica um olhar , importantíssimo, às reportagens que se constituiram em verdadeiros "clássicos" (detesto esse termo mas vai...) e tratam do trabalho de jornalistas que são referência na profissão.

Confesso que tenho uma "quedinha" especial para uma série que me faz recordar muito do que li nos jornais e revistas que sempre ocupavam espaço na minha casa e uma outra casa fundamental para o meu gosto de leitura, a casa do meus avós maternos, a série "Memórias". 

Falando em casa do avô mas sem dar spoiler porque gostaria muito que vocês ouvissem não só esse episódio mas na verdade todos, havia uma revista lá chamada "Realidade" e também existia um garoto (eu) que tinha um certo fascínio por assuntos como daquele exemplar que tratava do correspondente de guerra que fora ferido no Vietnã.

O correspondente não era um jornalista qualquer mas sim José Hamilton Ribeiro que muitos conhecem do Globo Rural mas que contava com uma trajetória sólida e extensa, antes e depois do abordado no episódio. Ouví-lo narrar toda a trajetória daquela reportagem , de como o jornalismo e a revista Realidade em si estava estruturada, do esforço de chegar-se até um Vietnã conturbado pela guerra é uma daquelas experiências quase visuais que são raras mesmo no mundo do podcast.

Aliás, destaque-se , a preocupação com a acessibilidade dos conteúdos para as diversas categorias de ouvintes é notável. Aponta uma necessidade que eu mesmo tenho de estar atento aqui nesse blogue com as ilustrações. 

Rodrigo Alves, jornalista, é a pessoa por trás desse podcast que tem um conteúdo que vai agradar a quem quer informar-se sobre o jornalismo que foi e está sendo feito no país e no mundo. 

"Vida de Jornalista" está disponível nas principais plataformas como o Spotify, Orelo e outras. É um daqueles podcasts que, quanto mais a gente ouve, mais quer ouvir. Aproveitem!


segunda-feira, 18 de julho de 2022

A RAPIDINHA DA SEGUNDA: O SAGRADO E O PROFANO DENTRO DE NÓS

 Seja em que horário que você esteja lendo, um abraço!

Nesse final de semana, ocorreu a Festa do Divino aqui em Piracicaba. À bem da verdade, deveríamos dizer que concluiu-se a festa porque ela começa com atividades de cunho religioso e culmina com essa verdadeira confluência entre o sagrado e o profano que é o evento de dois dias à margem do rio.

Era voz corrente que a festa, depois de dois anos sem ser feita por conta da pandemia, fez falta. Eu, mesmo não sendo religioso,posso dizer que senti falta de pegar a minha câmera e fazer fotos para, na visão pretensiosa que nunca me faltou, "documentar essa tradição da cidade". Seria mesmo isso ou , talvez, a oportunidade de encontrarmos amigos fotógrafos e outros conhecidos? Talvez tudo isso.

Para que não conhece, a  festa ocupa a avenida que margeia o rio e , lá há uma série de barraquinhas que vendem comes e bebes e também locais de "jogos" tradicionais como pescaria, tiro ao alvo, entre outros.

Há também o que podemos chamar de uma "zona mista", o Largo dos Pescadores, que, por também ter bares, é conhecido á boca pequena como "Largo dos Pecadores". Atentando mais à face que nos redime, esse local, uma praça cercada por vias de bloco intertravado, um bar ao lado em uma casa ainda verde e branco onde ficam dispostas as mesas para servir aos "pecadores" , tem ao fundo uma capela e um salão de festas em estilo clássico, pintado das cores do Divino, vermelho e branco.

Largo dos Pescadores - Piracicaba/SP
(Foto: José BV Libório)


Na rua ao lado da Capela, arma-se um palco que, na verdade, é o altar onde ocorrerá a missa, afinal, essa é uma festa religiosa. Antes dela,  eventos marcantes acontecem:  a Congada, essa colorida e musicalmente maravilhosa manifestação sincrética da África com a cultura ibérica , a procissão  do Divino Espírito Santo e o encontro de barcos, esses mesmos que foram "derrubados" na semana anterior e a subida do mastro com a bandeira do Divino que ficará o resto do ano ali.

Participante da Congada do Espírito Santo
Para quem não pode ver: a foto mostra uma senhora negra de roupa de marinheiro branco com detalhes em vermelho, lenço vermelho  e uma bolsa vermelhao com a pomba branca, símbolo do Divino. Na cabeça leva um quepe de marinheiro com símbolo do Divino em vermelho. Leva nas mãos um bastão vermelho.
(Foto: José BV Liborio)


Nesse mesmo espaço, o da praça em frente à capela, há uma verdadeira fartura de comidas e bebidas: chopp, leitoa, pastel, espetinhos e o famos cuzcuz do Divino, uma iguaria que todos deveriam experimentar uma vez na vida. 

Essa confluência do sagrado e do profano , no último sábado, gerou um evento que, confesso, nunca vi antes. Tendo em vista que entraram os andores de Nossa Senhora Aparecida, São Benedito (salve, padrinho) e do próprio Divino Espírito Santo sem que a mastigação e a bebedeira cessassem, o padre responsável tomou a palavra e advertiu:

- Oh, gente! Agora é hora da missa! Vamos parar de comer, beber, aliás, beber água pode e vamos prestar atenção. 

Confesso não ter tomado nota e nem sei se exatamente foram essas as palavras mas o espírito está mantido. Entre risos, pensei que dada minha estrita educação católica, eu já teria parado de comer e beber naquele momento. 

Restou uma pergunta íntima: o que estamos buscando nessas festas que fazem confluir o sagrado e o profano? Alívio para a alma ou o excesso mundano tendo como pretexto o alívio imediato que um verdeiro abuso gastronômico nos dá? Não sei dizer.

Fato é que para mim valeu por encontrar amigos, fazer fotos à moda antiga com meus rolinhos de filme  e particpar de algo dos dois mundos incluídos na festa sacro-profana. 

Protegei-nos, Divino Espírito Santo! Boa semana para todos!

sexta-feira, 15 de julho de 2022

A LUZ QUE (NÃO) NOS ILUMINA

 Quero imaginar que qualquer um de nós, em algum momento da vida, tomou-se um tempo para o livre exercício da imaginação e da projeção do futuro, do que se espera, deseja ou ainda, se quer fazer e não sou exceção.

No entanto, projetar a longo prazo nos impõe uma coisa que nem sempre nos dá paz: o confronto com a realidade, ainda mais quando o que se projeta ou se sonha é algo distante, obtido em décadas de esforço.

No final da década de 80, estava em um grupo de amigos que se propuseram a pensar no futuro e, confesso, penso que o fato de estarmos em um momento de superação da ditadura, nos enchemos de otimismo que, à luz do que aconteceu nas últimas décadas, converteu-se em uma demonstração da mais cruel das ilusões.

E que Brasil nós imaginávamos? A primeira caracterísitca, natural, era a liberdade e como tal entendíamos e projetavamos uma liberdade para dizer e para ser, um processo de superar os incontáveis preconceitos que nos cercam. Nossa ilusão não poderia ter mais incosistência: se por um lado era amplamente  viável em nível individual, infinitamente mais complicado torna-se no coletivo e a realidade tem nos demonstrado isso. De forma alguma é inviável mas é um processo que hoje eu me questiono quantos anos levará para superarmos nem que seja um pouco deles. 

O comício das diretas, simbolo de um momento de 
transformação que não se confirmou.
Para quem não pode ver: Foto em preto e branco da Catedral da Sé com multidão que participou do comício das Diretas Já em 1985.
A segunda ambição que nos apareceu é a da superação da miséria absoluta, algo que antevíamos ser absolutamente necessária para seguir a vida. Confesso ser uma meta ambiciosa, especialmente para aquele momento onde, ferida de morte, a ditadura deixava clara sua herança de uma crise econônica que só seria debelado quase duas décadas depois e que hoje, por projeto desse governo, retorna em seus controles dramáticos. 

Bom dizer: ninguém sonhava com uma safra de novos ricos ou milionários, ao contrário, ambicionavamos que ninguém passasse privações, que a ninguém fosse negado o direito de fazer suas refeições. Isso segue sendo pedir muito? Acredito que não.

Essas eram as utopias mais gerais e vou me permitir manter entre os que ainda se lembram, as ambições mais individuais. Eramos todos jovens, os mais velhos tinham, salvo engano, 23 anos. Hoje, homens e mulheres de mais de 50 anos, contemplamos nossas utopias e nossos "fracassos" talvez com mais tolerância do que deveríamos por, talvez, termos nos tornado parte do problema. 

As utopias seguem e talvez nos sigam por mais anos e me pergunto se essa luz nos ilumina. Acredito que não. Tudo o que não consegue sair à luz torna-se uma lembrança que se escreve em um blogue e , as lutas, formam parte de algo mais pragmático e menos idealista. 

Seguimos.