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quarta-feira, 20 de julho de 2022

Oriana Fallaci: a genial fúria incontida

 Talvez eu tenha feito um grande bem à minha vida em não ter cumprido um dos meus sonhos que era ser jornalista e, de forma alguma, isso é depreciativo à essa categoria que admiro tanto.

Penso se, de alguma forma, eu estaria transitando entre a vontade de ser direto, cortante, ser sem concessões na hora de entrevistar e algo em miim que tente à calar os extremos quando não devo e colocá-los à mostra em uma hora que talvez não fosse a apropriada.

Oriana Fallaci é (porque continua mesmo depois de morta) uma das entrevistadoras mais agudas e uma das escritoras mais intensas que eu tenha lido e isso lhe valeu uma condenação religiosa por conta do livro polêmico e sem concessões alertando sobre a islamização do ocidente chamado "A força da razão", um dos que tenho em minha biblioteca e são ainda encontrados em sites de livros usados (sebos). 

Essa fiorentina, nascida em 1929 em 29 de julho, viveu em sua juventude os tempos duros de fascismo e serviu, junto ao seu pai que foi preso e torturado, como correio da resistência, os "partisanos" e se atentarmos às datas, veremos que Oriana era uma adolescente que foi condecorada pelo exército italiano por suas ações na resistência.

Antes de chegar à universidade, Oriana conheceu pessoas cujos ecos da pasagem pela vida da italiana, ressoaram durante algumas entrevistas com pessoas em posição de comando como Henry Kissinger . A postura do então secretário norte-americano a remeteu à um professor de matemática de sobrenome Manchinelli, mestre com o qual Oriana teve uma conflituosa e insubordinada relação e, ao ver a forma de se sentar de Kissinger, pensou: "Meu Deus! Lá vamos nós com Manchinelli outra vez!". 

Não foi por outro motivo que, mais tarde, Kissinger arrependeu-se de dar aquela entrevista no qual foi massacrado pela pequena italiana. Essa entrevista pode ser lida, integralmente, no livro "Conversas com a história" .



Ao mesmo tempo que não tinha contemplação alguma ao entrevistar o secretário de estado, estabeleceu uma relação diversa com a primeira-ministra israelense Golda Meir e sua contraparte indiana, Indira Gandhi. Respaldada por, como  que diria em uma entrevista para a revista Rolling Stone, uma contínua referência à sua infância, reconheceu naquelas duas mulheres, uma solidão quase que própria de mulheres da idade de ambas.Em uma nota pessoal, essas entrevistas são as minhas favoritas, especialmente a de Golda Meir, uma das melhores que li com qualquer líder israelense. 

Oriana Fallaci (fonte: internet)
Para quem não pode ver: foto de uma mulher com cabelos longos abaixo dos ombros, rosto oval, olhando para o lado direito e as mãos com os dedos apertados.)

Dentro do contexto que mais gosto de ler Oriana, a de entrevistadora, recomendo um livro chamado "Entrevistas com a história". Em uma busca ligeira na internet na data de publicação desse artigo (jul/2022) apenas encontrei edições usadas em língua estrangeira, a minha , inclusive, sendo em língua inglesa. 

No entanto, o esforço em encontrá-la revelará uma jornalista que foi correspondente de guerra no Vietnã, que estava em seu auge quando se dedicava a entrevistar pessoas da mais variada gama de Yasser Arafat como o nosso Dom Helder Câmara, o chamado bispo vermelho.

Na pesquisa dos dados biográficos de Oriana, me deparei com um artigo de João Pereira Coutinho, publicado em 27 de junho de 2015, sobre a condenação que a autora italiana sofreu , por parte de um tribunal islâmico, por razão de seu livro "A força da razão" onde ela assinalava a crescente islamização do continente europeu, prevendo o declínio da civilização ocidental ante ao crescente domínio daquela religião. 

Em determinada altura do artigo, João Pereira Coutinho escreve: " Entendam: não sou fã de Fallaci e o tom é francamente desagradável. Fallaci escreve com raiva - e raiva ofusca o pensamento. Gente que grita não tem lugar na minha estante. " (grifo meu)

Certamente o articulista falava do livro em questão que era um libelo enfático escrito por alguém que soube o que é ter vivido sob um regime autoritário e opressivo. No entanto, se estendido à toda obra de Oriana, demonstra o quanto ser incisivo e ser raivoso transita em um território limitrofe e nem sempre bem entendido.

Para mim, na suspeita condição de admirador de Fallaci, lamento que na imprensa comercial atual, onde falta tanta contundência nas denúncias necessárias frente ao mundo e a o país que vivemos, falte alguém para emular a admirável entrevistadora.

Temo que, mesmo indicando isso, tivesse me faltado coragem ou uma vida diferente. 

terça-feira, 19 de julho de 2022

Podcasts que eu ouço: Vida de Jornalista

Podcasts tem se tornado uma paixão particular: o formato e a abrangência dos tópicos abordados, a própria "estética" de muitos deles, a facilidade em ouví-los à qualquer hora que seja possível, fazem-me retomar uma relação que confesso ter estabelecido com o rádio e que, de alguma forma, se quebrou com aquele meio por razões que não cabem explicar aqui.

De todos os podcasts que ouço , alguns  sobre os quais comentarei aqui,  um tem uma atração particular, principalmente por tocar um tema que eu amo que é o jornalismo: o Vida de Jornalista. 

Eu sou um daqueles que tem bem claro que nenhum setor da atividade cultural/econômica seja tão criticado e , ao mesmo tempo, tão pouco compreendido, do que o jornalismo e com a internet, esse desconhecimento tornou-se ainda mais acentuado. 

Os veículos tradicionais, já à anos, vem cedendo passo ao chamado "jornalismo digital" e o que mais considero interessante, já entrando no tema "Vida..." é que o podcast dedica-se tanto às novas plataformas e meios "emergentes" como dedica um olhar , importantíssimo, às reportagens que se constituiram em verdadeiros "clássicos" (detesto esse termo mas vai...) e tratam do trabalho de jornalistas que são referência na profissão.

Confesso que tenho uma "quedinha" especial para uma série que me faz recordar muito do que li nos jornais e revistas que sempre ocupavam espaço na minha casa e uma outra casa fundamental para o meu gosto de leitura, a casa do meus avós maternos, a série "Memórias". 

Falando em casa do avô mas sem dar spoiler porque gostaria muito que vocês ouvissem não só esse episódio mas na verdade todos, havia uma revista lá chamada "Realidade" e também existia um garoto (eu) que tinha um certo fascínio por assuntos como daquele exemplar que tratava do correspondente de guerra que fora ferido no Vietnã.

O correspondente não era um jornalista qualquer mas sim José Hamilton Ribeiro que muitos conhecem do Globo Rural mas que contava com uma trajetória sólida e extensa, antes e depois do abordado no episódio. Ouví-lo narrar toda a trajetória daquela reportagem , de como o jornalismo e a revista Realidade em si estava estruturada, do esforço de chegar-se até um Vietnã conturbado pela guerra é uma daquelas experiências quase visuais que são raras mesmo no mundo do podcast.

Aliás, destaque-se , a preocupação com a acessibilidade dos conteúdos para as diversas categorias de ouvintes é notável. Aponta uma necessidade que eu mesmo tenho de estar atento aqui nesse blogue com as ilustrações. 

Rodrigo Alves, jornalista, é a pessoa por trás desse podcast que tem um conteúdo que vai agradar a quem quer informar-se sobre o jornalismo que foi e está sendo feito no país e no mundo. 

"Vida de Jornalista" está disponível nas principais plataformas como o Spotify, Orelo e outras. É um daqueles podcasts que, quanto mais a gente ouve, mais quer ouvir. Aproveitem!