Talvez eu tenha feito um grande bem à minha vida em não ter cumprido um dos meus sonhos que era ser jornalista e, de forma alguma, isso é depreciativo à essa categoria que admiro tanto.
Penso se, de alguma forma, eu estaria transitando entre a vontade de ser direto, cortante, ser sem concessões na hora de entrevistar e algo em miim que tente à calar os extremos quando não devo e colocá-los à mostra em uma hora que talvez não fosse a apropriada.
Oriana Fallaci é (porque continua mesmo depois de morta) uma das entrevistadoras mais agudas e uma das escritoras mais intensas que eu tenha lido e isso lhe valeu uma condenação religiosa por conta do livro polêmico e sem concessões alertando sobre a islamização do ocidente chamado "A força da razão", um dos que tenho em minha biblioteca e são ainda encontrados em sites de livros usados (sebos).
Essa fiorentina, nascida em 1929 em 29 de julho, viveu em sua juventude os tempos duros de fascismo e serviu, junto ao seu pai que foi preso e torturado, como correio da resistência, os "partisanos" e se atentarmos às datas, veremos que Oriana era uma adolescente que foi condecorada pelo exército italiano por suas ações na resistência.
Antes de chegar à universidade, Oriana conheceu pessoas cujos ecos da pasagem pela vida da italiana, ressoaram durante algumas entrevistas com pessoas em posição de comando como Henry Kissinger . A postura do então secretário norte-americano a remeteu à um professor de matemática de sobrenome Manchinelli, mestre com o qual Oriana teve uma conflituosa e insubordinada relação e, ao ver a forma de se sentar de Kissinger, pensou: "Meu Deus! Lá vamos nós com Manchinelli outra vez!".
Não foi por outro motivo que, mais tarde, Kissinger arrependeu-se de dar aquela entrevista no qual foi massacrado pela pequena italiana. Essa entrevista pode ser lida, integralmente, no livro "Conversas com a história" .
Ao mesmo tempo que não tinha contemplação alguma ao entrevistar o secretário de estado, estabeleceu uma relação diversa com a primeira-ministra israelense Golda Meir e sua contraparte indiana, Indira Gandhi. Respaldada por, como que diria em uma entrevista para a revista Rolling Stone, uma contínua referência à sua infância, reconheceu naquelas duas mulheres, uma solidão quase que própria de mulheres da idade de ambas.Em uma nota pessoal, essas entrevistas são as minhas favoritas, especialmente a de Golda Meir, uma das melhores que li com qualquer líder israelense.
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| Oriana Fallaci (fonte: internet) Para quem não pode ver: foto de uma mulher com cabelos longos abaixo dos ombros, rosto oval, olhando para o lado direito e as mãos com os dedos apertados.) |
Dentro do contexto que mais gosto de ler Oriana, a de entrevistadora, recomendo um livro chamado "Entrevistas com a história". Em uma busca ligeira na internet na data de publicação desse artigo (jul/2022) apenas encontrei edições usadas em língua estrangeira, a minha , inclusive, sendo em língua inglesa.
No entanto, o esforço em encontrá-la revelará uma jornalista que foi correspondente de guerra no Vietnã, que estava em seu auge quando se dedicava a entrevistar pessoas da mais variada gama de Yasser Arafat como o nosso Dom Helder Câmara, o chamado bispo vermelho.
Na pesquisa dos dados biográficos de Oriana, me deparei com um artigo de João Pereira Coutinho, publicado em 27 de junho de 2015, sobre a condenação que a autora italiana sofreu , por parte de um tribunal islâmico, por razão de seu livro "A força da razão" onde ela assinalava a crescente islamização do continente europeu, prevendo o declínio da civilização ocidental ante ao crescente domínio daquela religião.
Em determinada altura do artigo, João Pereira Coutinho escreve: " Entendam: não sou fã de Fallaci e o tom é francamente desagradável. Fallaci escreve com raiva - e raiva ofusca o pensamento. Gente que grita não tem lugar na minha estante. " (grifo meu)
Certamente o articulista falava do livro em questão que era um libelo enfático escrito por alguém que soube o que é ter vivido sob um regime autoritário e opressivo. No entanto, se estendido à toda obra de Oriana, demonstra o quanto ser incisivo e ser raivoso transita em um território limitrofe e nem sempre bem entendido.
Para mim, na suspeita condição de admirador de Fallaci, lamento que na imprensa comercial atual, onde falta tanta contundência nas denúncias necessárias frente ao mundo e a o país que vivemos, falte alguém para emular a admirável entrevistadora.
Temo que, mesmo indicando isso, tivesse me faltado coragem ou uma vida diferente.

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