sexta-feira, 15 de julho de 2022

A LUZ QUE (NÃO) NOS ILUMINA

 Quero imaginar que qualquer um de nós, em algum momento da vida, tomou-se um tempo para o livre exercício da imaginação e da projeção do futuro, do que se espera, deseja ou ainda, se quer fazer e não sou exceção.

No entanto, projetar a longo prazo nos impõe uma coisa que nem sempre nos dá paz: o confronto com a realidade, ainda mais quando o que se projeta ou se sonha é algo distante, obtido em décadas de esforço.

No final da década de 80, estava em um grupo de amigos que se propuseram a pensar no futuro e, confesso, penso que o fato de estarmos em um momento de superação da ditadura, nos enchemos de otimismo que, à luz do que aconteceu nas últimas décadas, converteu-se em uma demonstração da mais cruel das ilusões.

E que Brasil nós imaginávamos? A primeira caracterísitca, natural, era a liberdade e como tal entendíamos e projetavamos uma liberdade para dizer e para ser, um processo de superar os incontáveis preconceitos que nos cercam. Nossa ilusão não poderia ter mais incosistência: se por um lado era amplamente  viável em nível individual, infinitamente mais complicado torna-se no coletivo e a realidade tem nos demonstrado isso. De forma alguma é inviável mas é um processo que hoje eu me questiono quantos anos levará para superarmos nem que seja um pouco deles. 

O comício das diretas, simbolo de um momento de 
transformação que não se confirmou.
Para quem não pode ver: Foto em preto e branco da Catedral da Sé com multidão que participou do comício das Diretas Já em 1985.
A segunda ambição que nos apareceu é a da superação da miséria absoluta, algo que antevíamos ser absolutamente necessária para seguir a vida. Confesso ser uma meta ambiciosa, especialmente para aquele momento onde, ferida de morte, a ditadura deixava clara sua herança de uma crise econônica que só seria debelado quase duas décadas depois e que hoje, por projeto desse governo, retorna em seus controles dramáticos. 

Bom dizer: ninguém sonhava com uma safra de novos ricos ou milionários, ao contrário, ambicionavamos que ninguém passasse privações, que a ninguém fosse negado o direito de fazer suas refeições. Isso segue sendo pedir muito? Acredito que não.

Essas eram as utopias mais gerais e vou me permitir manter entre os que ainda se lembram, as ambições mais individuais. Eramos todos jovens, os mais velhos tinham, salvo engano, 23 anos. Hoje, homens e mulheres de mais de 50 anos, contemplamos nossas utopias e nossos "fracassos" talvez com mais tolerância do que deveríamos por, talvez, termos nos tornado parte do problema. 

As utopias seguem e talvez nos sigam por mais anos e me pergunto se essa luz nos ilumina. Acredito que não. Tudo o que não consegue sair à luz torna-se uma lembrança que se escreve em um blogue e , as lutas, formam parte de algo mais pragmático e menos idealista. 

Seguimos. 

3 comentários:

  1. Muito bom o texto, ainda com uma pegada de nostalgia. Tomara ela sirva para fazer balanço entre o que poderia, o que pode e o poderemos fazer diante das constatações da vida. Parabéns pelo texto e pelo resgate da memória.

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